domingo, 5 de março de 2017


A minha saudade tem o mar aprisionado

na sua teia de datas e lugares.

É uma matéria vibrátil e nostálgica

que não consigo tocar sem receio,

porque queima os dedos,

porque fere os lábios,

porque dilacera os olhos.

E não me venham dizer que é inocente,

passiva e benigna porque não posso acreditar.

A minha saudade tem mulheres

agarradas ao pescoço dos que partem,

crianças a brincarem nos passeios,

amantes ocultando-se nas sebes,

soldados execrando guerras.

Pode ser uma casa ou uma rede

das que não prendem pássaros nem peixes,

das que têm malhas largas

para deixar passar o vento e a pressa

das ondas no corpo da areia.

Seria hipócrita se dissesse

que esta saudade não me vem à boca

com o sabor a fogo das coisas incumpridas.

Imagino-a distante e extinta, e contudo

cresce em mim como um distúrbio da paixão.



José Jorge Letria
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