domingo, 26 de junho de 2016

Ilusão...


Uma vez eu tive uma ilusão
E não soube o que fazer
Não soube o que fazer
Com ela
Não soube o que fazer
E ela se foi
Porque eu a deixei
Por que eu a deixei?
Não sei
Eu só sei que ela se foi
(...)

Sei que tudo o que eu queria...
Deixei tudo o que eu queria...
Porque não me deixei tentar
Vivê-la feliz...
(...)




Julieta Venega/Marisa Monte







“Fique livre do mundo, aproveite a dor, ame de olhos fechados e se divirta na Terra.”





Cazuza

TODAS AS PALAVRAS


As que procurei em vão,


principalmente as que estiveram muito perto,

como uma respiração,

e não reconheci,

ou desistiram e

partiram para sempre,

deixando no poema uma espécie de mágoa

como uma marca de água impresente;

as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te

nem foram capazes de dizer-me;

as que calei por serem muito cedo,

e as que calei por serem muito tarde,

e agora, sem tempo, me ardem;

as que troquei por outras (como poderei

esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);

as que perdi, verbos e

substantivos de que

por um momento foi feito o mundo

e se foram levando o mundo.

E também aquelas que ficaram,

por cansaço, por inércia, por acaso,

e com quem agora, como velhos amantes sem

desejo, desfio memórias,

as minhas últimas palavras.




Manuel António Pina




Mulher é desdobrável.

 Eu sou.



Adélia Prado


sábado, 18 de junho de 2016

Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite


e não sei como fazê-lo

''




Vasco Gato

arquivamos o amor no abismo do tempo 





Al Berto



Um beijo legítimo nunca vale tanto como um beijo furtado.





Guy Maupassant

Se você ama, diga que ama.
 Diga o seu conforto por saber que aquela vida e a sua vida se olham amorosamente e têm um lugar de encontro. 
Diga a sua gratidão. 
O seu contentamento.
 A festa que acontece em você toda vez que lembra que o outro existe. 
E se for muito difícil dizer com palavras, diga de outras maneiras que também possam ser ouvidas. 
Prepare surpresas. 
Borde delicadezas no tecido às vezes áspero das horas. 
Reinaugure gestos de companheirismo. 
Mas, não deixe para depois. 
Depois é um tempo sempre duvidoso.
 Depois é distante daqui. 
Depois é sei lá…





Ana Jácomo

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Foda-se!


'Tomo um café, acendo um cigarro. 

Durante um minuto, fico pensando em parar.

 Parar como param os monges budistas. 

Parar e olhar. 

Só um minuto. 

Pronto: agora tenho que sair correndo outra vez para ganhar a vida. 

Ganhar ou perder? 

Eu sei a resposta. 

Mas posso cantar baixinho um velho Roberto Carlos, aquele assim: 

“Querem acabar comigo/ isso eu não vou deixar”.

 Juro que não.'



Caio F. Abreu

Humildade


Senhor, fazei com que eu aceite 
minha pobreza tal como sempre foi. 

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”




Cora Coralina





domingo, 12 de junho de 2016


Porque o tempo é invisível perdi

o poder de te nomear



se algum dia voltares não vais reconhecer

o grau zero das nossas despedidas:



conhecer por antecipação o cenário

silencioso onde alguém fala palavras

que não ouves



tens em ti a rigidez dos gestos parados

entre os silêncios







[Maria Sousa]


Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.
.
.

Helena Kolody

“Amor a gente não procura. 

É assim: você deixa a porta meio aberta, se distrai plantando girassóis e ele entra. 

Ele adora contrariar.”
.
Gabito Nunes

O amor não tem princípio nem fim porque quem vive no seu presente vive na eternidade. 
O rosto do amor ao olhar-nos prende-nos a si para sempre. 
Nunca mais esquecemos o seu olhar infiltrante, feiticeiro, a insinuar-se e a impor a sua presença para todo o sempre.
 Nunca mais esquecemos as feições do amor, o corpo em que encarna, o toque mágico que primeiro dá à luz o nosso próprio corpo e depois o ressuscita vezes sem conta de cada vez que o acaricia na noite da vida.
 O amor é um animal selvagemque chega ate nós e ocupa cada ponto do nosso corpo, mais, toda a nossa vida. 
O seu poder de contaminação é total. Basta um só olhar. 
O amor é esse conflito prmanente e completo: liberta e agarra, é doçura e amargura, refaz e desfaz, ressuscita e adormece, faz-nos sonhar e confronta-nos com a realidade pura e dura, dá à luz. 
Mas também tem o poder de nos matar.







Pedro Paixão

quinta-feira, 9 de junho de 2016


Você me leva à loucura

Falando ao meu ouvido

No meio da rua



Combinação - Kid Abelha


“Aqui deste lado não poderias ser quem eras, quem serias. 
Fugiste de um mundo pequenino, de uma asfixia. 
Agora de ti nada sei: de que te alimentas, quem amas, onde dormes.
 Nem desejo saber. 
Basta-me lembrar-te como quem relembra uma música. 
Eu quis-te com uma violência que desconhecia.
 Tu levaste-me para paragens inóspitas, repletas de perigos. 
Por ti senti pavor. Por ti senti raiva. 
Por ti senti desespero. 
Entre nós havia sempre uma impossibilidade, um vazio. 
Tu eras em tudo um bicho indomável. 
Nunca te oferecias. 
Era preciso ir buscar-te aos lugares mais secretos.”




[Pedro Paixão]

#eudescobri




Sombras de amores
em bailado longínquo, num palco sem fundo
como um fundo de espelho...


 João Guimarães Rosa

quarta-feira, 8 de junho de 2016


(...)

Tens na pele travo a laranja e no beijo três gomos de riso

Tanto mel, tanto sol, fruta, sumo, água fresca, provei e perdi o juízo

Peguei, trinquei e meti-te na cesta, ris e dás-me a volta à cabeça

Vem cá tenho sede, quero o teu amor d'água fresca

(...)




Rosa Lobato Faria

Quanto tempo foi gasto procurando coisas e pessoas que preenchessem minhas lacunas quando eu apenas precisava do vazio; 

De estar comigo na feiura e na beleza que carrego.



Marla de Queiroz

“Quem mente também rouba. 

Rouba o direito do outro de saber a verdade”


.

Khalled Hosseini in "O caçador de Pipas”.

segunda-feira, 6 de junho de 2016


A solidão de dois numa mesa.
A solidão de dois numa cama.
A solidão de dois, quando um só deles ama.




Vicente Gallego

domingo, 5 de junho de 2016


Equilibrista, não se apoiava em nada nem ninguém, sem muletas ou bengala.


'Danem-se', repetiu olhando enfrentativa em volta.


Mas 'danem-se' não era suficiente para aquela gentalha.


Então rosnou: 'FODAM-SE!' em voz baixa, mas com ódio suficiente, exclamação, maiúscula e tudo.


Ficou mais serena depois, embora exausta, desaforada e sem toxinas.




Caio Fernando Abreu

sábado, 4 de junho de 2016

Fábula da Ondulação do Teu Corpo


Fábula da Ondulação do Teu Corpo

dessas noites à beira-rio em que silenciosas as mãos
contavam cabelos, carinhos e outras histórias assim
recordo o marulhar da água contra as rochas mudas
o lamento das rãs e o vento morrendo nos arbustos
as promessas de uma foz em que poderia desaguar
a nau do desejo apenas segredado entre duas bocas
relembro o olhar das margens fluviais e esse querer
descobrir novos caminhos marítimos para as índias
adormecidas em nós mas sempre sonhadas no mar

do mar que não vi guardei a ondulação do teu corpo



José Luís

De mão dada contigo entro por mim dentro
...


Fernando Assis Pacheco

Desencontro

Eu te dou pão e preferes ouro. 

Eu te dou ouro, mas tua fome legítima é de pão.




Clarice Lispector

quinta-feira, 2 de junho de 2016


Não há outra verdade senão a que invento.



Adriano Espínola

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...  Quantas frases mal pronunciadas, sussurradas, cheias de uma pressa, de apelo e de fé elevei ...