domingo, 27 de setembro de 2015


A estrutura da bolha de sabão, compreende? 
Não compreendia. 
Não tinha importância.
 Importante era o quintal da minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros, que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. 
Uma de cada vez. 
Amor calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca.



Lygia Fagundes Telles

"A noite - enorme,
 tudo dorme, 
menos teu nome".


Paulo Leminski

"A fé é um exercício pra vida inteira. 
Muitas e muitas vezes, eu me distancio incrivelmente dela, achando que posso resolver tudo sozinha. 
Não é raro nessas ocasiões, na verdade é bastante comum, eu me atrapalhar toda num turbilhão de emoções que me drenam a energia e o sorriso. 
Mas, toda vez que consigo acessá-la, de novo, tudo se modifica e se amplia na minha paisagem interna. 
(…) Então, faço o que me cabe e entrego, mesmo quando, por força do hábito, eu ainda dê uma piscadinha pra Deus e lhe diga: 
“Tomara que as nossas vontades coincidam”. 
Faço o que me cabe e confio que aquilo que acontecer, seja lá o que for, com certeza será o melhor, mesmo que algumas vezes, de cara, eu não consiga entender."


— Ana Jácomo.

sábado, 26 de setembro de 2015


"Dentro de mim mora um grito
De noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar."


Sylvia Plath

[…] 
A canção é só isso: um amor que se consome em chama entre o instante da voz e a eternidade do silêncio.
Outros cantadores, quando atuam em público, se trajam de enfeites e 'reluzências'.
 Mas, em meu caso, cantar é coisa tão maior que me entrego assim pequenininha. 
Dessa maneira, menos que mínima, me torno sombra, desenhável segundo tonalidades da música.
Cantar, dizem, é um afastamento da morte.
 A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida.
 Dizem, mas, para mim, a voz serve-me para outra finalidade: cantando eu convoco um certo homem.
 Era um apanhador de pérolas, vasculhador de maresias.
 Esse homem acendeu a minha vida e ainda hoje eu sigo por iluminação desse sentimento. 
O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando mutuamente.
Amei esse peroleiro tanto até dele perder memória.
 Lembro apenas de quanto estive viva. 
Minha vida se tornava tão densa que o tempo sofria enfarte, coagulado de felicidade. 
Só esse homem servia meu litoral, todas vivências que eu tivera eram ondas que nele desmaiavam. 
Contudo estou fadada apenas para instantes. 
Nunca provei felicidade que não fosse em taça que, logo após o lábio, se estilhaça. 
Sempre aspirei ser árvore. 
Da árvore serei apenas luar, a breve crença de claridade.[…]

Mia Couto

sexta-feira, 18 de setembro de 2015


No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: 
Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos — 
O verbo tem que pegar delírio.



Manoel de Barros

terça-feira, 15 de setembro de 2015


é difícil enumerar noites quando são
um nervo exposto da memória


se quero falar sobre as variações da insonia
sabes o que te posso contar?


à espera de resposta digo-te que
gosto de noites curtas


e que ao estar sozinha vão nascendo pássaros
nos regressos que desenho para portas por abrir




maria sousa

domingo, 13 de setembro de 2015


A boca

onde o fogo

de um verão

muito antigo

cintila.

O que pode uma boca

esperar

senão outra boca?




Eugénio de Andrade

A liberdade é a possibilidade do isolamento.
Se te é impossível viver só, nasceste escravo.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 7 de setembro de 2015


Eu ainda acredito

Num futuro mais bonito.

-

Jorge Vercillo.

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele.



David Mourão-Ferreira


"A amizade é a corda que amarra o coração de todo o mundo."


John Evelyn
Penso que é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém,

É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,

A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.


Álvaro de Campos,

sábado, 5 de setembro de 2015


vem

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite

sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te




al berto

Outros amarão as coisas que eu amei




Sophia de Mello Breyner Andresen

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...  Quantas frases mal pronunciadas, sussurradas, cheias de uma pressa, de apelo e de fé elevei ...