quarta-feira, 31 de outubro de 2012

arranque-me


arranque-me senhor:

 as roupas e as dúvidas

dispa-me!

dispa-me!


Eduardo Galeano

-Sabe, Snoopy, eu tô desenvolvendo uma nova Filosofia:
 Eu só preciso suportar um dia por vez.




Charlie Brown

É como se a gente não soubesse pra que lado foi a vida, porque tanta solidão...



Lenine

*Triste, mas tão Lenine!

"Do lugar onde estou já fui embora


Manoel de Barros

terça-feira, 30 de outubro de 2012

segunda-feira, 29 de outubro de 2012


um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.


Manuel Alegre

domingo, 28 de outubro de 2012

Transcendental


Tu sabes: 

Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda...



José Luís Peixoto

Ele...


Ele chega, toca-me, deixa-me



Cecília Meireles
 Uma estrada no campo. 
                   Uma árvore.
                                 AnOItecer.



Samuel Beckett.

Que meu silêncio seja...



"Que o meu silêncio seja a tua canção!" 


Georg Trakl

morre‑me a boca por beijar a tua





Camilo Pessanha

A mágica do Teatro Mágico: Viva!


Viva a tua maneira,
Não perca a estribeira
Saiba do teu valor.
E amanheça brilhando mais forte
Que a estrela do norte
Que a noite entregou...



O Teatro Mágico

Não pensar no amor,
porque o amor não se pensa.
Pensar no amor ou é:
não pensar, ou é: não-amor.


Gonçalo M. Tavares,


"Naquele instante imóvel seguravas nas tuas mãos
todas as palavras e todos os sorrisos e todos 
os soluços abafados e todos os medos contidos. 
Nessa página branca presa nos teus dedos
escrevi com olhos úmidos 
a manhã que não nasceu.



Isabel C. Neves

sábado, 27 de outubro de 2012

Te amei...: Inteira!


"Te amei sonâmbula,

esdrúxula,

mas te amei inteira.”



Hilda Hilst,

meto-me dentro de mim mesmo e acho aí um mundo!


 Goethe


quando se esgotaram os caminhos
que a razão poderia aconselhar-nos
abrem-se os teus olhos, e com eles tudo
volta a inundar-se da luz escura
que dá sentido ao mundo e à minha vida


Amalia Bautista

Como o seu nome... Qual é o gosto que eu nunca esqueci?


Como era o seu nome, sua casa, sua vida, seu passado? Desejava conhecer os móveis de seu quarto, todos os vestidos que usara, as pessoas que frequentava; e até o desejo da posse física desaparecia sob um anseio mais profundo, uma curiosidade dolorosa que não tinha limites.



Gustave Flaubert


**Ao som de ''você existe eu sei'' de Biquini Cavadão

Bilhete.... Na madrugada,


Saio da cama pela fenda do lençol e fecho-a sobre ti. 
Toco o chão ao de leve, como uma ave repousa na pele das ondas. 
Visto-me às escuras _ tão mais discreta a blusa do avesso, a saia tão distraída nas costuras. 
Vou para a cozinha de sapatos na mão e escrevo-te um bilhete: deixei-te um beijo sobre a tua almofada antes de sair.
 Não preciso assinar


Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Mas chegarei... Porque tu me chamas.



Não sei 
como entrar no teu bairro na tua vida,
a tua vida de puzzles e de palmeiras,
o teu bairro de lata e de armaduras.
Não sei 
como ir da minha vida à tua rua,
a tua rua cheia de perguntas,
a minha vida estranha sem respostas.
Mas chegarei.
 Porque tu me chamas.


Belén Sánchez

Eu gostava...


eu gostava de poder dizer que entrei no teu corpo como um pássaro espreitando através de invisíveis ruínas e que o som da tua voz bastava para me salvar...


Alice Vieira

Uma flor nasceu na rua!


Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe,
bondes,
ônibus,
rio de aço do asfalto do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia,
rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 22 de outubro de 2012


Estamos ambos de pé, estamos ambos nus, diante do enorme espelho aí à largura dessa parede: e todo eu me escondo atrás do seu corpo, assim lhe mostrando como só o seu corpo ali merece refletir-se. (…). Mas os seus olhos apenas espiam, na superfície do espelho, o reflexo do meu rosto semioculto.



David Mourão-Ferreira

sem saudade de você, sem saudade de mim, o passado passou enfim


Alice Ruiz

domingo, 21 de outubro de 2012

Quando a gente gosta... A gente cuida! Cuida mais do que devia...



Quando a gente gosta, a gente cuida.
Cuida mais do que devia.
Gostar é se prevenir do desgosto.
A gente nunca sabe o que é suficiente,
a gente vai se doando, se gastando, sem pedir troco.
A gente gasta mais do que tem
e corre atrás para imaginar o que não viveu
para não fazer falta à memória mais adiante.



Fabrício Carpinejar

para quê vestir-me?


Fumo um cigarro nu a teu lado, cabelo em desalinho, corpo amarrotado, lençóis pisados ao fundo da cama, peças de roupa espalhadas no chão, fome alucinada que tudo devorou. não quero partir, não quero ficar, tão pouco tenho pressa de o perguntar. estou bem onde estou, junto do teu corpo, copos manchados de cuspo e dedadas. tinha-te dito à chegada, enquanto te enchia o copo: separa-nos uma e um quarto de luís pato (unidade de medida astronómica). à nossa. disse-te e batemos os copos. digo-te agora: separa-nos cada passo de cada dia percorrido (unidade de medida terrestre). o caminho a todo o comprimento e largura. máscaras, disfarces, medo, meias palavras.

para quê vestir-me?




Jorge Roque


A cama de ferro 
É o vão que resta 
E o calor que resta... 
Resta, resta. 
Para cama e dormir 
E sem lágrimas escorrem 
Os segundos informes 
Minutos horas 
E você nunca 
Os pingos da chuva choram 
E você nunca 
E tic-tic 
tic-tic 
passam as horas. 


Sylvia Plath

(...) Saudade bruta... (...) Aflição de não ser outro lugar, outro tempo. (...) Energia zero indo embora pelas teclas da máquina, livros para a Around. Nenhum remédio que dê alegria: a seco, amanhã continuo. A ausência também. Ou não? Pode ser."



Caio Fernando de Abreu

sábado, 20 de outubro de 2012

teu corpo!


teu corpo

é linguagem pura

frágil refúgio

da minha lOUcura

metade prAzer

metade torTura



Lau Siqueira

Livre!


'Quando o que você mais teme acontece

você está livre para não temer mais nada. 

Livre para saber que a vida não pode ser controlada e que há algo de maravilhoso nisso'



Cris Guerra


A poesia está guardada nas palavras - 
é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não cultivo conexões com o real.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro,
Poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias do mundo e nossas.



Manoel de Barros

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Explicação da Eternidade:



a boca
onde o fogo
de um verão

Explicação da Eternidade: 
DeVaGaR
o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo.

os assuntos que julgávamos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterno até ao fim.




José Luís Peixoto,


**Fim!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012


numa noite de audácia incomparável
passo a tratar-te por tu, e abraço com as pontas dos dedos os nós das tuas mãos; no fresco calor condicionado
de um quarto onde a luz não dá para ler, recito
estrofes e mitos; beijo-te, não é? 
nada estava escrito,
nenhuma verdade comum aos planetas,
éramos só nós sem nenhum segredo,
vivos e completos, serenos, mortais



António Franco Alexandre

De uma leveza! Carregadinho de fé...



ceifaram-me as asas
antes de as sentir

como
abri-las
senão imaginando?


Casimiro de Brito 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012


(...)

bem gostaria de me dar ao luxo

de ter o tempo todo que quisesse

para fazer só coisas esquisitas,

coisas desnecessárias, prescindíveis

e, sobretudo, inúteis e patetas.

por exemplo, amar-te com loucura.






Amalia Bautista

domingo, 14 de outubro de 2012


Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite



Manoel Bandeira

tua mão!


(...)
Nunca senti bater o meu coração
Como senti ao sentir a tua mão
(...)


Ana Moura

sexta-feira, 12 de outubro de 2012


Elas crescem em segredo, as crianças.


Escondem-se no mais oculto da casa para serem gato bravio, bétula branca.


Chega ao dia em que estás descuidado 
a olhar o rebanho que regressa


com a poeira da tarde, e uma delas, a mais bonita, aproxima-se em bicos de pés,

diz-te ao ouvido que te ama, que te espera sobre o feno....
A tremer vais buscar a caçadeira, e passas o resto da tarde a disparar

sobre as gralhas, inumeráveis, aquela hora....




Eugênio de Andrade

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

AbrAçA-mE....



AbrAçA-mE. 
Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. 
Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. 
AbrAçA-mE
Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. 
PrOcuUrA-mE 
Com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. 
AbrAçA-mE
Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. 
Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos. 
Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que dele fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes. 
AbrAçA-mE
Uma vez só. Uma vez mais. 
Uma vez que nem sei se tu existes. 



Joaquim Pessoa, 

cumplicidade!...



diz-me um segredo qualquer coisa inacessível dessa tua alma

alguma coisa que eu possa ainda fingir que não sei



gil t. sousa

Nem o que é nosso nos pertence.


Salgado Maranhão

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

pernoito...


pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração
OU onde o medo tem a precaridade doutro corpo....


Al Berto

Ela? Não se entende! É uma entrega!


Toda a vida tentara entender a vida,

vivê-la como ideia que pudesse pensar.

Só agora percebia que a vida era outra realidade.

Uma brisa inesperada na face.

Uma areia encravada sob a pálpebra.

Nada que alguma vez tivesse pensado.

Esta lágrima.

Este choro que arranha e lava.





Jorge Roque

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Das manhãs....



Apenas levarei a luz

Despovoada

Sem promessas
sem barcos
E sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua vez

Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs e madrugadas


Daniel Faria

Olho-me nos teus olhos.
Não tem fundo a pura madrugada em que me afogo.
Na minha cama desfeita ainda o (teu) calor se deita



António Arnaut

domingo, 7 de outubro de 2012

era domingo


era domingo
no teu vestido novo
azul turquesa
aquele onde eu buscava
transparências
encontrei castanhos
os teus olhos
e foi nesse mar
que se afogaram os meus


Rui de Morais

'Povoamentos...'


Eu habito em você e você em mim;

Somos dois jardins assombrados pelo outro.

Às vezes não consigo encontrar você ali,

Há somente o balanço rangendo,

Logo após sua partida,

Ou seu livro favorito atrás do relógio de sol.



Douglas Dunn


"O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio. Se não há coragem, não se entre."


Clarice Lispector

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...  Quantas frases mal pronunciadas, sussurradas, cheias de uma pressa, de apelo e de fé elevei ...